NEGÓCIO DE MUITOS


A economia da cocaína é avaliada, apenas nos Estados Unidos da América, em 38 mil milhões de dólares, livres de impostos, obviamente. Mas mesmo que esta fosse uma indústria taxada de acordo com as leis norte-americanas, ainda assim estaria bem à frente da indústria legal mais lucrativa naquele território, a da saúde, com uns “modestos” 21 biliões de dólares de lucro, a valores de 2014. Curiosamente, uma indústria que depende em larga escala do processamento de compostos derivados de várias plantas.

 E é curioso pensar que bastaria uma pequena divergência na sua composição molecular e um simples chá de camomila seria uma droga implacável. O ónus coube, contudo, a um parente distante, a planta da coca. Sim, esta é uma avaliação um pouco naïve da segunda droga mais traficada em todo o mundo, consumida por entre 15 a 19 milhões de pessoas à escala global.


Uma apreciação objetiva deve incidir não no que a planta é, mas naquilo para que é utilizada. E nas últimas décadas tem sido usada para fazer muito dinheiro. Mesmo muito.



CONSUMO

Biliões de Dólares


América do Norte38
Europa37

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Oceânia6

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Ásia3

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O EFEITO ESCOBAR


Dois aspetos contribuíram para a disseminação fulgurante do consumo da cocaína na década de 1970: a descoberta da sua base livre e a entrada em cena de Pablo Escobar. Até então a cocaína era geralmente inalada e era vendida a preços mais elevados – o que a associou a um estilo de vida mais “glamoroso”, das classes mais elevadas. Com a descoberta do freebase - a droga na sua forma sólida, por oposição ao sal alcalino em que é normalmente extraída da planta da coca -, foram apresentados novos modos de consumo, sendo mais fácil fumar a droga, por exemplo. Os preços baixaram, o perfil de consumidor alterou-se e a procura aumentou drasticamente. Pablo Escobar estava preparado para isso.


O colombiano, nascido em Rio Negro, no departamento de Antioquia, já conquistara uma reputação considerável no submundo nos primeiros anos da década de 1970, e com cerca de 23 anos já era vasta a experiência adquirida no contrabando de tabaco, furto de automóveis e sequestros.

Escobar viu nesta mudança de paradigma do mundo da droga a oportunidade de negócio que iria sustentar a sua ambição desmedida.

O seu país não era, até então, o maior produtor da planta da coca, sendo superado pelo Peru e pela Bolívia. A verdade é que todos os povos da região dos Andes cultivavam a planta com variados fins, muitos deles religiosos ou culturais. Mas a partir do momento em que Escobar se juntou aos irmãos Ochoa e criou o Cartel de Medellín, o cultivo da coca pendeu de forma radical para o lado obscuro da sua aplicação e arrastou consigo não só um país, como todo o mundo.


EMPREENDEDOR VISIONÁRIO, ORGANIZADOR IMPLACÁVEL

Escobar não era o típico contrabandista. Passou por um breve período de formação universitária e tinha horizontes bastante mais vastos do que os peões que comandava. Tinha aspirações políticas, ambicionava chegar ao cargo de presidente do seu país. E a verdade é que, não fossem os seus métodos pouco subtis, talvez lá tivesse chegado. Quando o negócio do tráfico de droga começou a prosperar (prosperar talvez seja um  eufemismo ) Escobar devolveu algum do lucro à comunidade, sendo acarinhado como uma espécie de Robin Hood.

Fã incondicional de  automóveis , Escobar chegou a organizar várias competições, participando mesmo em algumas, ao volante de uma 4L. Uma carreira paralela ao crime que não terá durado mais de quatro anos, mas que mostra um dos traços mais marcantes da sua personalidade, a sua vontade de ganhar, sem esconder a cara. Talvez seja essa a razão pela qual Escobar tenha sido convidado a integrar o Partido Liberal, tendo mesmo conquistado um lugar no Congresso em 1982. Curiosamente, seria mais tarde traído pelas mesmas pessoas que o chamaram para a vida política, o que pode servir de explicação para a  retribuição  algo excessiva que se seguiu.

Mais motivado que nunca, Escobar dedicou toda a sua energia ao seu negócio, expandindo horizontes, aumentando a sua capacidade logística e oprimindo de forma brutal a oposição. Quem não se juntava a ele atraído pela cor do seu dinheiro, enfrentava uma barragem impiedosa de balas. Foi nesta época, durante a qual o traficante cunhou a expressão “plata o plomo”, que o narcotráfico se apresentou numa imagem paradoxal: a mesma pessoa era para os Estados Unidos o inimigo número 1, responsável por cerca de 6000 mortes, enquanto para o povo colombiano, especialmente os residentes de Medellín, era um homem caridoso, que distribuía dinheiro e construía estádios de futebol.



PRODUÇÃO


  • COLÓMBIA: 450 Toneladas70%
  • PERÚ: 302 Toneladas40%
  • BOLÍVIA: 113 Toneladas20%

Colômbia
A plantação de arbustos de coca caiu cerca de 58% entre 2000 e 2009 neste país, mas ainda assim a Colômbia permanece no topo de produtores e distribuidores.

Perú
O monopólio colombiano do mercado americano obriga a que o Peru escoe a cocaína que produz para os mercados alternativos, como a Europa.

Bolívia
A percentagem de área cultivada com arbusto da coca aumentou em 112% na primeira década deste século.



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Escobar construiu um império graças à cocaína, muito à semelhança de qualquer empresa que conste na lista da Fortune 500. Para além de uma frota de veículos (terrestres, aéreos e marítimos), o Cartel de Medellín possuía uma estrutura muito bem organizada, incluindo quadros superiores – Escobar e o seu irmão, que ocupava o cargo de contabilista chefe, sem esquecer os irmãos Ochoa –, grupos de pilotos e um “pequeno” exército privado de sicarios, cerca de 2000 homens que, sem hesitar, assassinavam todos os que se opunham às operações do cartel. Ao todo, estima-se que o Cartel de Medellín empregou mais de 750 000 pessoas durante as suas três décadas de atividade criminosa, durante as quais movimentou 80% de toda a cocaína consumida à escala global.

Durante todo este tempo, Escobar conquistou algo mais com enorme facilidade: inimigos. Para além do governo do seu próprio país, Escobar era perseguido pela DEA e mais tarde pelo Search Bloc, um grupo altamente militarizado criado com o único propósito de capturar o narcotraficante. Mais tarde, e num exemplo do que pode ser considerado a lei da concorrência empresarial deste setor económico paralelo, nasceu o grupo de vigilantes Los Pepes (Los Perseguidos por Pablo Escobar), financiado pelos cartéis rivais do Cartel de Medellín – e apoiado de forma encoberta pelas autoridades colombianas e norte americanas.  

 

A PERGUNTA POR RESPONDER

Com tantos inimigos, a morte de Pablo Escobar está envolta em mistério. Um dia depois do seu 44.º aniversário, o Search Bloc conseguiu triangular o sinal de telemóvel enquanto Escobar falava com a sua mulher e filhos, num de muitos sinais da sua devoção à família. Na verdade, foi este seu lado intrinsecamente humano – algo que não era comum no mundo do tráfico de droga – que acabou por ser o carrasco de Escobar. Seguiu-se uma perseguição pelos telhados de um bairro de classe média de Medellín, durante a qual Pablo Escobar e o seu guarda-costas Alvaro de Jesús Agudelo foram atingidos com múltiplos tiros. O tiro fatal que atingiu Escobar, com o ponto de entrada num dos ouvidos, adensou o mito que sempre rodeou o narco empresário.

De entre os seus vários perseguidores, quem terá dado o tiro final e como?

Foi Escobar executado, para evitar uma nova manipulação das autoridades e garantir o fim do Cartel de Medellín? Terá sido a polícia colombiana a responsável ou Los Pepes? Mais ainda, terá Escobar cometido suicídio, para não se deixar apanhar?
Aos 44 anos mais um dia de vida, acabou o reinado de Pablo Escobar, mas não o seu legado. Para além de continuar a ser considerado um benfeitor junto das classes mais pobres – e talvez por isso o seu funeral tenha contado com a presença de cerca de 25 mil pessoas), o seu empreendedorismo cimentou o papel da Colômbia como o centro nevrálgico do tráfico de cocaína, à escala global. Os seus métodos impiedosos e eficientes, replicados pelos cartéis que se apoderaram do mercado, garantem ainda hoje que a Colômbia seja o maior produtor de cocaína, mesmo face à erradicação em massa do arbusto da coca no território colombiano. Por isso mesmo se diz que Pablo Escobar é o capo que continua a governar, mesmo além da campa.