Dor de dentes? Tome um rebuçado de cocaína!

Existiu um tempo em que a cocaína não só era legal, como era usada segundo prescrição médica. Estava presente em dezenas, se não centenas de produtos, desde vinho a rebuçados para as dores de dentes, que faziam as delícias dos mais novos e, durante uns anos, era um dos mais importantes ingredientes de uma famosa bebida refrigerante, de tal forma que até constituía (e ainda constitui) metade do nome da marca. Na viragem do século XIX para o XX, a cocaína era encarada como um revitalizante, algo que os médicos indicavam para pequenas maleitas e que era até utilizada como uma forma eficaz de anestesia nos blocos de cirurgia. Mas também era cada vez mais uma tendência nas festas de uma Hollywood embrionária, a novidade em vários círculos sociais que se espalhou um pouco por todo o mundo, uma moda. Foi apenas quando o governo dos Estados Unidos tomou consciência do aumento do número de mortes relacionadas com o consumo de cocaína que foram tomadas medidas para a proibição do seu uso fora do âmbito medicinal. Na altura, assinava-se o Tratado de Versalhes, que estipulava os termos da paz após a I Grande Guerra, e aproveitando a oportunidade, dezenas de países assumiram uma postura rígida de combate às drogas – ao mesmo tempo que forçavam os alemães a entregar a patente da aspirina e da heroína, que até então eram marcas registadas de uma das maiores empresas farmacêuticas. Nas décadas seguintes, a cocaína manteve-se sob o olhar atento das autoridades, mas sem grandes motivos de alerta. Nos anos 70 do século XX, contudo, a cocaína envolveu o mundo numa nuvem de pó branco.